18.4.06

Menos bundas, please.

Santa ironia. A sociedade britânica anda me afetando de maneira bastante intensa, parando pra pensar. Se eu fosse fazer uma retrospectiva e botar na balança a pessoa que eu era a três anos atrás e a pessoa que eu sou hoje, hmm, quanta diferença (a voz continua a mesma). De jovem libertária e desafiadora (a favor de drogas, sexo livre, 'tecnêra', all those things), ando me movendo gradualmente a uma posição mais, ahn, conservadora. Eu mesma ando surpresa com as minhas próprias opiniões.

Um exemplo? A história da semana passada sobre fundamentalistas islâmicos queimando cópias da Playboy em Jacarta. Não, não achei nada legal, até porque a Playboy da Indonésia não tem nem fotos de mulher pelada, mas me fez pensar na disparidade de padrões entre aqui e lá. Aqui nós somos inundados com imagens de mulheres peladas o tempo todo e em tudo que é lugar. Abre-se o jornal, lá estão elas. Ou melhor, nem precisa abrir. Jornais como o Daily Star e o Daily Sports estampam imagens de bundas e peitos em tamanhos desproporcionais na capa mesmo. Uma ida ao supermercado ou á um café, e dezenas de peitos e bundas nas capas das inúmeras lads mags (revistas masculinas) te recepcionam logo na entrada. Liga-se a TV e lá estão Jordan (na foto ali em cima) e Chantelle, dois dos ídolos maiores (e põe maior nisso) das adolescentes que imaginam que o tamanho do peito é diretamente proporcional ao sucesso profissional e inversamente proporcional ao tamanho do cérebro. Até nas livrarias, adivinha quem está em segundo lugar na lista dos livros mais vendidos? De novo a biografia (a segunda em menos de três anos) da 'abundante' Jordan, aka Katie Price, dessa vez contando sobre como é arrumar marido dentro de um reality show.

Vinda de um país onde toda propaganda de cerveja carrega bundas cada vez maiores e onde meninas sonham em entrar no Big Brother pra virar capa da Playboy ao sair do programa, eu não deveria estar incomodada com esse tipo de "liberalismo." Mas quando a rede de supermercados Sainsbury's anunciou que ia começar a cobrir as tais revistas masculinas com um filme plástico depois que clientes reclamaram do excesso de exposição de 'soft-porn', eu me peguei comemorando.

No site de debates do Guardian 'Comment is Free' , muita gente condenou a decisão e chamou isso de censura. Não é censura, é respeito ao espaço de quem não está afim de ser confrontado com imagens de "air-bags" ao ir comprar leite pro café da manhã . As revistas continuam lá, a venda pra quem quiser comprar, só não vão estar estar enfiadas na tua cara. Um leitor disse que qualquer mídia com teor sexual deveria estar disponível pra aqueles que "procuram" por elas ao invés de estarem expostas em prateleiras de lugares frequentados por crianças de 6 anos. Não poderia concordar mais. Se o sexo não estivesse tão exposto a ponto de virar banal hoje em dia, teríamos muito mais espaço pra outros assuntos mais relevantes e interessantes, e menos problemas de auto-estima.

E isso faz de mim uma senhora conservadora? Não sei. Mas sei que o Brasil bem que poderia começar a pensar no assunto também.

3 comments:

Relesporter said...

O Conar, órgão que fiscaliza a publicidade brasileira, lançou recentemente a campanha "Mulher não é mercadoria" para por fim às propagandas de abusam da estética feminina, e o alvo é justamente uma marca de cerveja. Talvez haja iniciativa por aqui. O que falta é conscientização.

Anonymous said...

Q uoh.. meu comentario nao saiu

Led said...

Err... de um lado a mulher como icone de sucesso entre os publicitários. De outro, a total repressão e submissão. Tipo, um oito e um oitenta :/