8.7.05

Londres, Sete de Julho.

Tudo comecou com um telefonema confuso as 9 da manha. Junior, meu namorado de quase 5 anos, reclama no celular por ter acordado atrasado pro trabalho e pra piorar, os trens estao todos atrasados.

"Amor, da' pra voce ver na internet uma rota diferente pra mim? A Jubilee line ta parada."

"O que aconteceu?"

"Nao sei, os tiozinhos nao querem falar, mas ouvi alguem comentar sobre uma explosao no underground. Aproveita e ja' ve se saiu alguma noticia sobre isso."

E assim comecou o furor. No site do Guardian e da BBC, duas breves notas diziam que o metro estava criando confusao na cidade depois de uma corte na energia ter acionado uma explosao em uma das linhas. Cinco minutos depois, clico no botao de atualizar e a nota ja' e' maior: uma linha nao, duas. Parece ate' que dois trens acabaram batendo.

Ligo de volta pro meu namorado. "Acho melhor voce pegar um onibus. Ta' dizendo aqui que o underground esta' todo parado."

Mais alguns minutos depois e todo o sistema de metro e' suspenso. Resolvo ligar a tv, a BBC provavelmente deve soltar comentario nas noticias entre os programas de decoracao e reformas de casas.

E la' estava. Bombas no underground. Oh, nao. O dia fatal, tao esperado, tinha chegado. Em questao de minutos, os numeros foram aumentando. Nao foram duas explosoes. Foram sete.

Ligo de volta. "Aonde voce ta'? Tem bombas nos trens, pelamordedeus, cuidado!"

"Eu to sabendo. Sai do onibus, to no DLR. Mas acho que vou andando, to me cagando de medo de ficar aqui dentro."

Nao era a toa. Meia hora depois, todos os canais entram em plantao, fazendo cobertura das estacoes atingidas. Meu coracao vem parar na boca quando o apresentador anuncia que tres onibus no centro explodiram. Parece que um teve o teto completamente arrebentado.

Pego no celular e tento contatar os amigos mais proximos e a familia no Brasil. La' tambem, as noticias voam. "Pelamordedeus filha, nao saia de casa!" Eu nao estava planejando sair ate' a noite. Ia passar o dia ali, na frente da televisao, com o Powerbook no colo, checando minuto a minuto os acontecimentos do dia mais antecipado e mais temido de Londres.

Ligo no trabalho. "Ta todo mundo aqui, todo mundo bem. Tudo isso ta sendo devastador, mas a vida continua e nos vamos trabalhar normal ate' fechar." Nao e' possivel. Sera' que voces nao veem que Londres esta' sofrendo ataques terroristas??

Pouco antes da policia cortar os celulares pra deixar as linhas livres pros servicos de emergencia, Junior liga de volta. "To num pub aqui em Canary Wharf. Ta' lotado, todo mundo bebendo cerveja e assistindo a tv. Ninguem ta' em panico."

Era verdade. As imagens na TV mostravam pessoas cobertas em sangue e fuligem dando a propria versao das explosoes de maneira absolutamente calma. Alguns fazendo piadinhas ainda, entre risadas meio nervosas. Horas depois, quando sai' pra trabalhar, as ruas estavam cheias de pedrestes, parecendo mais confusos do que em panico. De repente, o mapa dos trens e onibus nao servia pra nada, o importante era saber como chegar nos lugares andando.

A noite, uma sensacao esquisita me dominava. Uma mistura de tristeza pelas quase 40 pessoas que morreram ali do lado de onde eu morava e trabalho, alivio por ter sido um ataque relativamente pequeno comparado com os de Madrid e de USA, e curiosidade pela maneira como os Londrinos enfrentaram a crise. As onze da noite, a vida parecia ter voltado ao que era antes com pessoas saindo aos tropecos dos pubs e bares, black cabs e night buses trafegando em normalidade surreal.

Chego em casa na madrugada do dia 8 e fico aliviada de ver Nick, meu gato. Me peguei com inveja dele, que mesmo depois de tudo, permaneceu assim, preguicosamente ignorante do mundo la' fora.

5 comments:

cartolina said...

Que loucura Thaís!
Fiquei feliz por estarem bem.
Beijos

dani said...

Deu um alivio chegar ao fim do seu post. que bom que está tudo bem.... fiquei bem surpresa com seu relato, da maneira como as pessoas reagiram.. vai entender!
beijo

Fabiano Lucena said...

Nossa, cheguei aqui através da Globo.com, fico contente por estar tudo bem com os compatriotas que aí estão.
Minha irmã está em Bournemouth, umas duas horas ao sul, no litoral.
Vamos pedir a Deus para não acontecer novamente, pra que esse povo, seja lá quem for que tenha feito isso, aprenda a conviver em paz com todos, pois somos todos irmãos.

Abraços e fica com Deus

Anonymous said...

Oi!! Sou aki do Brasil e vi seu blog na globo.com!!! Um absurdo tudo isso que está acontecendo no mundo... temos que orar mto a Deus para q isso páre... Uma prima minha morava aí em Londres.. há 6 meses ela voltou pro Brasil... ainda bem.. :)

Beijus e boa sorte pra vc aí em Londres!!!

Maria Cláudia said...

Que bom que vcs estão bem. Cheguei pela GLOBO, vc escreve muito bem, posso ficar?